Cinthia Marcelle

On this very world

Cinthia Marcelle 55

source: sprovieri

Cinthia Marcelle lives and works in Belo Horizonte, Brazil, and graduated in Fine Arts from the Universidade Federal de Minas Gerais (1996-1999).

Marcelle uses video and photography to document the effects that her interventions have on the usual order of things. Marcelle’s work is particularly inspired by the chaos and turmoil of possibilities found in everyday life. She tries to gain a distance from this chaos and re-organise the disorder formally. Her actions create situations that challenge our notions of conventional behaviour by introducing humorous coincidences and connections.

Marcelle’s work has been part of significant group exhibitions including Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro, Brazil (2013), the second New Museum Triennial, New York, USA (2012), Tate Level 2 Gallery, London, UK (2012), the Bienal de Lyon, France (2007), Panorama da Arte Brasileira, São Paulo, Brazil (2007) and Madrid, Spain (2008) and the IX Bienal de la Habana, Cuba (2006).

Cinthia Marcelle has been awarded prelevant International Prizes such as the Future Generation Prize from the Victor Pinchuck Foundation in 2010 and the TrAIN artist in residency award at Gasworks, London, UK in 2009.
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source: galeriavermelho

“- Você viaja para reviver seu passado? – era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser reformulada da seguinte maneira: – Você viaja para reencontrar o seu futuro?
E a resposta de Marco:
– Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá”.
(Ítalo Calvino, As Cidades Invisíveis)
Uma câmera fixa capta a confluência de malabaristas num sinal de trânsito. A cada fechar de semáforo, uma nova dupla emerge para um balé sincronizado de malabares de fogo. Ao se formar um paredão de, o sinal abre e o fluxo de carros não é permitido. O enfrentamento dá-se entre os movimentos ritmados e as buzinas enfurecidas. Fade out. Só restam os ruídos deste embate. Não sabemos quem ganha a batalha.
O vídeo Confronto, de Cinthia Marcelle, é rota com várias vias de acesso. Fiquemos com duas trilhas: uma nos leva a contextualizá-lo na série Unus Mundus, uma congregação de eventos sincrônicos que a artista vem propondo desde 2004. Um outro caminho possível aponta para o projeto chamado “Temos Direito ao Vetor. O que tangecia apenas vem. Eu vou dizer de novo. Temos Direito ao Vetor. O que tangecia apenas vem”, individual de Cinthia ocorrida em Belo Horizonte e no Recife, que relaciona Confronto com objetos repletos de potência narrativa.
Peguemos então a primeira estrada. Unus Mundus é um conceito amplo que foi utilizado por alquimistas, taoístas chineses e de maneira estendida pelo psicanalista Carl Jung. Obviamente, cada utilização do termo tem suas próprias conotações, mas em geral significa assinalar um estado de multiplicidade unificada, um único mundo que contém tudo, além do tempo e do espaço. Uma cosmovisão que enxerga dicotomias como amor e ódio, espírito e matéria, bem e mal, paz e guerra etc com harmonia e união. A experiência unus mundus acontece quando o tempo é condensado numa unidade objetiva atemporal, como ocorre em vivências do sagrado e nos sonhos. O taoísmo acredita que aquele que se unifica com o unus mundus tem a capacidade de andar sobre as nuvens, sobre os mares, sobre o fogo. A psicanálise Junguiana, por sua vez, interpretará esta noção como sincronicidade e conseqüentemente uma conexão tal entre os indivíduos que leva o nome de inconsciente coletivo. Os eventos externos ressoam e parecem fazer parte de nossa psique, como se tudo estivesse contido na mesma totalidade.
O que interessa em particular a Cinthia Marcelle é a constatação da conectividade entre sujeito e mundo, indivíduo e coletividade, da mesma forma que fica em evidência a impossibilidade de prever ou mesmo de mensurar os acontecimentos simultâneos que se repetem a cada instante no mundo. As proposições Unus Mundus da artista compreendem além do Confronto: História (Quarenta e quatro objetos alheios são consertados e agrupados em um mesmo espaço), Geografia (Duzentos e cinqüenta e seis braços de mangueira partem de uma torneira em direção a uma mesma lagoa), Volta ao mundo (nove kombis brancas contornam simultaneamente uma mesma praça), Audição (nove pessoas compõem uma orquestra com diferentes instrumentos e músicas variadas) e Refrão (sete casais se entregam ao mesmo tempo a um longo beijo). Provocar coincidências gera no espectador uma espécie de suspensão reflexiva, um estado de consciência das camadas cognitivas que cada indivíduo carrega. Incita-se um sentimento de que não se está só, que apesar da efusiva fragmentação das coisas, compartimentação da vida, há algo que une, que causa compartilhamento. Uma visão comunicativa da heterogeneidade. A sincronicidade dos malabaristas amarra temporalidades e espacialidades elastecidas.
Trilhemos o segundo itinerário. O diálogo entre o Conversador e AS. presta-se como bússola de uma jornada: “Você sabe que existem duas viagens: uma vez você quer se deslocar de onde você está, outra vez é quando o lugar que você está não existe mais. É como uma estrada sendo engolida pela floresta, a entropia está sempre vindo atrás”. Os vestígios do caminhante/retirante estão espalhados pela galeria. Um chapéu de feltro encoberto com carrapichos. Um par de meias impregnado de terra encontra-se estendido na parede. Uma cerca miragem posiciona-se de tal maneira que apenas sugere obstáculo. Traços de uma pista apontam direção. Um cachecol amarelo trançado numa árvore remete ao que fica no lugar pelo o qual se passou. Uma fotografia impregnada de cor terra apresenta um cavalo sem cabeça. Seria nova miragem? Seria um princípio de sonho? O percurso descamba em confronto. Figuras lúdicas disputam espaço com a encarnação da urbanidade. Seria o fim da estrada? Seria o início de outro percurso? “Onde estive havia uma beleza suspensa que terei que realizar. Ou então ela me sufoca”, pontua AS. Todas as rotas levam ao impasse e ao diálogo.