GRAZIELE LAUTENSCHLAEGER AND RITA WU

De novo, Ercilia

source: fileorgbr

Graziele Lautenschlaeger e Rita Wu – De novo, Ercilia
“De Novo, Ercília” (2012) é uma instalação sonora interativa que convida o visitante a atravessá-la e experimentar padrões corporais e sonoros por meio da interação com elásticos. Em seu livro “As Cidades Invisíveis”, Italo Calvino menciona Ercília, uma cidade onde se estendem fios para designar as relações entre as pessoas e as coisas. De tempos em tempos, Ercília é abandonada e remontada em outro lugar.
.
.
.
.
.
.
source: fileorgbr

Graziele Lautenschlaeger e Rita Wu – De novo, Ercilia
“De Novo, Ercília” (2012) is an interactive sound installation that invites the visitor to cross and experience body and sound standards, interacting with the elastics. In his book “The invisible cities”, Italo Calvino mentions Ercília, one city where extend wires designate the relations between people and things. From times to times, Ercília is abandoned and reassembled in another place.
.
.
.
.
.
.
.
source: nomadsuspbr

Graziele Lautenschlaeger é mestre pelo Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos/Universidade de São Paulo. Em 2011 foi pesquisadora visitante no Lagear – Laboratório Gráfico para Experimentação Arquitetônica, na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Atualmente é animadora cultural do SESCSP.
Rita Wu é arquiteta e atualmente estuda Tecnologia Gráfica. Pesquisadora do grupo DeVIR – ‘Design, Ambiente e Interfaces’, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade de São Paulo – FAUUSP.
Daniela Kutschat é artista plástica, doutora em Artes. Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAUUSP, e do Centro Universitário Senac. Desenvolve pesquisa e proposições sensoriais e cognitivas a partir do duplo Corpo_Espaço e investiga a aplicação de Tecnologias de Informação e de Comunicação ao Corpo, Objeto, Ambiente e Cidade.

Resumo
“De Novo, Ercília” (2012) se constitui como uma instalação interativa sonora que convida o visitante a atravessá-la e experimentar padrões corporais e sonoros por meio da interação com uma estrutura cheia de elásticos. Em “As Cidades Invisíveis”, Italo Calvino nos fala de Ercília, uma cidade onde se estendem fios para designar as relações entre as pessoas e as coisas. De tempos em tempos, Ercília é abandonada e remontada em outro lugar. Dialogando com o sintético tratado de desenvolvimento urbano e da própria existência sugerido pelo autor, “De Novo, Ercília” é um projeto itinerante. E na primeira versão construída, para a Mostra LabMis 2011, Ercília foi a cidade de São Paulo.
Palavras-chave: instalação interativa, interface tangível, paisagem sonora, Cidades Invisíveis, São Paulo.

Introdução
“De Novo, Ercília” (2012) foi concebido e produzido ao longo de 2011 pelo programa de residência do Museu da Imagem e do Som1, uma das poucas instituições públicas brasileiras financiadora de experimentações em arte e tecnologia desenvolvidas por jovens artistas. O programa de residência prevê a experimentação por três meses em laboratório e, dado o caráter interdisciplinar das propostas, fez-se possível a interlocução com tutores de diferentes áreas do conhecimento.
Adriano Mattos Correa, arquiteto e professor da UFMG, nos auxiliou com questões relativas à estrutura física construída. Radamés Ajna, físico, programador e entusiasta da “cultura do faça você mesmo”, contribuiu no desenvolvimento dos circuitos e da programação do hardware. Fernando Iazetta, músico e professor da ECA/USP, abriu caminhos para a lapidação e programação do material sonoro coletado pelo cenário urbano paulistano. Todos, à sua maneira, contribuíram para o entrelaçamento das decisões práticas com os conceitos almejados e, Daniela Kustschat, artista e professora da FAU/USP, nos parametrizou criticamente sobre cada passo que tomávamos durante o processo. Tais interlocuções são oriundas de vontades pré-existentes de se trabalhar, de um lado, junto a pares já reconhecidos; e de outro, de se lançar no reconhecimento de novos parceiros.
Assim, através da coordenação de diferentes frentes de trabalho, “De Novo, Ercília” estreou na Mostra LabMis 2011, integrando ainda mais um parceiro, o bailarino Eduardo Fukushima, que na ocasião da abertura performou sua leitura do projeto sobre as estruturas elásticas de “De novo, Ercília”

Ao exigir do corpo movimentos não habituais, instáveis e incomuns, “De Novo Ercília” se manifesta como um sistema de produção de sentido que, ao mesmo tempo que desconstrói, reconfigura experiências e referências perceptivas. O projeto, de autoria de Graziele Lautenschlaeger e Rita Wu, é um convite à experimentação corporal e sonora através da interação com uma estrutura de elásticos.

Fonte de inspiração é Ercília, cidade descrita na obra “As Cidades Invisíveis”, de Ítalo Calvino, uma cidade onde se estendem fios para designar as relações de “parentesco, trocas, autoridade, representação” (CALVINO, 2003, p. 74). De tempos em tempos, Ercília é abandonada e remontada em outro lugar. Assim, dialogando com o sintético tratado de desenvolvimento urbano e da própria existência sugerido pelo autor, “De Novo, Ercília” é um projeto itinerante. E na versão estreiante, Ercília foi a cidade de São Paulo.

Matéria poética: literatura e espacialidade

A relação entre o projeto de construção do ambiente e a literatura se dá, também, a partir de uma apropriação poética de cinco de seis princípios descritos por Calvino (1990) em “Seis Propostas para o Próximo Milênio”. A apropriação ocorre no trânsito entre as linguagens verbal (texto de Calvino) e não-verbal (concepção do ambiente-acontecimento). Entende-se cada princípio como potencial imaginário a partir do qual emerge o acontecimento: o espaço físico e a experiência de desconstrução e reconfiguração dos sentidos.

O primeiro princípio, leveza, é regido pela imagem da batalha de Perseu contra Medusa. Aqui a batalha serve de metáfora ao processo de criação e articulação do mental ao físico, ao desafio de colocar em uma forma leve o peso de questões que levaram à concepção do projeto. No ambiente físico, o princípio se manifesta na estrutura branca, repleta de elásticos cilíndricos brancos, esticados em várias alturas e direções. Essa configuração propicia uma experiência de pisar e tatear em superfície macia e instável. E o som é tratado de forma a não pesar a ouvido e pensamento.

O segundo princípio, rapidez, se reflete na escolha de uma estrutura narrativa algoritmica enxuta que encerra em si a possibilidade de emergência de múltiplas narrativas. Na estrutura concebida, cada narrativa se efetiva em tempo real, na experiência de cada visitante.
Assim como a estrutura narrativa, também a escolha de cada elemento que compõe o projeto é programada e estipulada matematicamente. Esse modus operandi remete ao terceiro princípio, exatidão.

O quarto princípio, visibilidade, foi pensado a partir da tensão entre individual e coletivo, como as paisagens sonoras construídas a partir da captação de sons da cidade. Ouvidas conforme o deslocamento do corpo no ambiente, ativam instâncias da ordem do sujeito: memórias, imagens e pensamentos.

O último princípio, multiplicidade, se apresenta a partir da ideia de que há pluralidade na coleta e seleção do material sonoro, apresentado organicamente como trama, assim como as relações expressas no modo de vida urbano. Além disso, propõe-se uma abertura de significações a partir da experiência única de cada visitante, que conecta o material sensorial oferecido com seus respectivos repertórios.

Os princípios se manifestam arbitrariamente no ambiente construído a partir do movimento de nossa imaginação e interpretação. Constituem um programa espacializado e informam blocos de construção da instalação. Cada princípio aplicado ao projeto funciona como matéria poética atualizada em forma. A busca pela forma, incessante e árdua – coincide com a própria natureza do movimento de Ercília: “teias de aranha de relações intricadas à procura de uma forma” (CALVINO, 2003, p. 74).

Arte-processo
Tomamos o processo de criação como um ato de investigação. Desde a invenção da estrutura física, passando pela a coleta e análise dos sons utilizados, até a programação do design de interação, era muito recorrente que nos perguntássemos: o que emerge de matéria poética da cidade, ao experimentá-la?
E com base na atenção ao processo, verificamos que por um lado, articulações abstratas como pensamentos, reflexões e insights criativos eram formalizados através do uso de diversos materiais e ferramentas do universo digital; por outro, a experimentação com essa diversidade de elementos retroalimentava e reformatava o mundo das ideias. É nesse modus operandi, no trânsito entre concreto e abstrato, no fluxo de ir e vir, que “De Novo, Ercília” ganhou sua primeira forma, uma forma que não se torna perene, que se autonomiza em tempo, a cada nova interação.
Também a qualidade da interação do visitante é associada à configuração espaço-temporal do ambiente-acontecimento. Construído em camadas que variam de físicas e concretas a abstratas e efêmeras, o sistema condensa operações, procedimentos e processos analógicos e digitais. A ênfase no acontecimento, no estar, na experiência do corpo, associa o rígido-estrutural ao flúido-vivencial em um ato performático.
Na primeira exposição pública de “De Novo Ercília”, o bailarino e performer Eduardo Fukushima integra o sistema: penetra em um todo elástico no qual se ouvem fragmentos de paisagens sonoras. Cada movimento do corpo provoca deformações físicas visíveis (elásticos) e invisíveis (sons) e a reorganização do ambiente-acontecimento. Integrados em performance, corpo, elásticos e sons reorientam, a cada momento, tramas, fluxos, relações semânticas e sentidos.